sexta-feira, 8 de julho de 2016

Rescue

As pessoas.
Ah, as pessoas.
Daniel é fã de caminhões. De todos eles.
Aprendi um tanto sobre caminhões e as diferenças entre eles.
Entre os favoritos, estão o caminhão de bombeiros e o betoneira.
Ele canta músicas sobre eles, conta histórias. Muito fã.
Centro, São Carlos. Loja de quinquilharias.
Um caminhãozinho de bombeiros logo na entrada. Baratinho, comprei.
Uma criança feliz com um brinquedo de plástico porcaria.
Pensamentos acerca disso.
Ele lá, na trip do caminhão.
Eu nem tão lá, na trip do quanto custa ser feliz.
~não há caminho para a felicidade, felicidade é o caminho~ e essas porra toda.
As pessoas.
Ah, as pessoas.
Ser respirante aleatório surge:
-QUE LEGAL SEU CAMINHÃO, DÁ ELE PRA MIM?
Eu quis chorar.
Daniel chorou de fato depois de um sonoro NÃO nas barbas do indivíduo.
Chilicou.
- It's Daniel's toy! IT'S DANIEL'S!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!11111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111111 é MEU, mamãe, é meu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!11111111111111111
O ser vivente, em choque, sai de perto. Vai embora caminhando numa boa, no melhor estilo ~fodeu; vazei~.
Eu não tinha como sair de perto. Abaixo pra acalmar Daniel no melhor estilo ~fodeu; fiquei~.
- É seu, ninguém vai pegar, fica sussa. Tá tudo bem, vamos embora.
(abraço, beijo, soluço, nariz escorrendo, etc.)
Ônibus, sacolejo.
O cobrador:
- Uau, alemão! Que caminhão bonito!!! (...)
Antes de qualquer coisa eu interrompi o lance.
CNV mandou beijos doces e gentis.
Chilique recém resolvido, moleque nem tinha conseguido curtir o plástico porcaria direito.
- MOÇO, CÊ TEM TROCO PRA VINTE? PORQUE EU VOU DESCER LOGO ALI NA FRENTE E NÃO TENHO TROCADO. CÊ TEM? TÁ CALOR HOJE, NÉ? NOSSA, QUE TEMPO MALUCO.
Ele tinha troco pra vinte.
Disse ainda que hoje à tarde chove.
Pelo menos não pediu um caminhão de bombeiros.
E eu ainda saí com a previsão do dia.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Da quebra:

foi o terceiro copo essa semana.
E hoje ainda é quinta.
O primeiro na segunda: encostou em água fria. Copo quente, rachou como se triste; toda aquela areia, sódio e cálcio, todo o calor da feitura, todo o calor para qual sua existência fora planejada, tudo em vão ali ao toque do frio. Preferiu partir, ó mundo hostil.
O segundo na terça; frio estava, mármore. Fez-se solto o fundo como se uno nunca fosse; vidro da resistência enfim livre. Corpo são, fundo cirurgicamente solto. A unidade nunca existiu.
O terceiro na quinta; caiu do altar dos copos expostos ao tempo. Sonoramente espatifado, escondeu-se nos cantos para dificultar a partida.
- Fica aí, filho, preciso limpar isso primeiro.
Verdes olhos atentos ao escândalo da transparência quebrada. Imóvel:
- Ali, mamãe, o vidro!
Pai, o meu, diz que vidro quebrado é a visualização do belo e do maldito.
Bela a partida - abre espaço para o novo.
Maldita a partida - nem sempre esperada, muitas vezes chorada e doída, sempre força a gente a alguma coisa.
A gente sempre tem que limpar os cacos do que fica.
E hoje já é quinta.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Da bola:


Apreciando um caminhão de lixo do portão. 
Ele, Daniel, a empolgação em forma de criança; ouviu o caminhão e os gritos dos lixeiros e correu. Vidrado no caminhão que barulhento funcionava do outro lado da rua.
Do complexo esportivo, duas caçambas cheias de sacos pretos.
Entre gritos e piadas dos lixeiros, os sacos eram retirados e jogados pra dentro do maquinário infernal que esmaga o que achamos que é fora.
Ele, Daniel, vidrado.
Ele, Daniel, a empolgação em forma de criança.
O maquinário infernal esmagando o não fora.
Eis que surge uma bola. Bola boa, dessas de clube, de jogar bem jogado.
Eles, os lixeiros, entre gritos e piadas, sacos de lixo e buzinas de carros, tocavam bola.
O maquinário.
Esmagando.
Terminado o processo, um dos lixeiros segue em direção a nós com a bola em mãos.
- Moça, tó pro moleque, todo moleque joga bola, só tá vazia, leva no posto que enchem.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa a bola estava pra dentro do meu portão.
Ele, Daniel, vidrado, bola em mãos, hipnotizado com o caminhão.
Eu, perplexa, grata pelo gesto - mas com temor confesso da aproximação repentina. Já havia sido proferida frase agressiva daquele mesmo aparelho fonador. Frase pra mim, frase pra outras mulheres na rua.
De repente, a rua da amargura.
Quando o caminhão de lixo passa eu tranco a porta.
Ninguém entra, ninguém sai.
- Com uma mãe dessa eu não sei o que faria - e risos.
Eu? Silêncio e vergonha.
Não dou bola.
Ganhei uma.