terça-feira, 21 de junho de 2016

aquele headstand

De baque solto, em pleno frio junino, fui ter com Jorge no último sábado.
O Mautner.
Cheguei a ele no ensino médio. Figurão, andava cos cara que eu admirava na música.
- Quem me dera saber poetizar assim; acho que só com muitos anos de muita parada dura é possível chegar a esse nível de inspiração.
(pensava eu)
E Jorge confirmou o que eu senti a vida toda: a música e a poesia são os grandes pés da cultura.
Não entendo de cordas e sopros - arrisco nos tambores. A alfaia é um grande amor, a dança que vem junto é um grande amor, o maracatu de baque solto que vem junto é um grande amor.
Na minha poesia há risco.
Um, um, um.
De um em um, vou-me.
Enchendo de amor.
Abstrata fala - Jorge me contava tudo.
Aquele espaço todo daria uma boa aula de yoga - digredi. Aquela luz...
Voltei - ele falava de Gil e Caetano.
O seu amor, ame-o e deixe-o ser o que ele é - eu ouvia.
Aquele headstand sobre os cotovelos, hoje eu faço, hoje não há dor - ele falava sobre o nióbio no país.
A emoção é um tipo de inteligência. Toda fala carregada de emoção é o emanar da inteligência, Jorge me disse.
Tem razão.
Aquele headstand, saiu só.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Corujando #1



Daniel dançou hoje na escola.
Saído de mim há 2 anos e 5 meses, dançou. 
Pra ninguém e só pra mim.
Eu transbordei. Não pela dança, não pela fofura [sim  ], não pela autonomia e talento [corujando nível hard] - transbordei pelo que a dança significa. Pra mim, a princípio - e pra ele, agora vejo.
Sei lá se dançarino será.
Mas eu sou dançarina. Ainda bem.
A dança dele foi muito mais sobre mim do que sobre ele.
De caminhos retomados lentamente e das visões de luzes que piscam, gritam e avisam (viva a Plebe Rude!), eu vejo que o amor de pouco mais de um metro que hoje dança fora e longe de mim deixou n'alma minha uma pista d'um tanto que eu jamais pensei entender: uma alma com corpo, não o contrário.
Da melhor mulher que posso ser - da melhor mãe que posso ser - do melhor caminho que acredito trilhar - repito: meu filho dançou hoje na escola.
E eu dancei pro universo.

domingo, 12 de junho de 2016

marinheira só

Dia desses me disseram que eu tinha cara de quem tava sempre de passagem. Cara de quem não é daqui e nem de lugar nenhum. Fiquei meio na bad porque né, marinheira só, nem de São-Salvador sou.
Passou.
Hoje eu esqueci minha carteira em algum lugar.
Fui à padaria perto de casa pra ver se ela jazia por lá. Nada.
- Moça, esqueceram essa carteira aqui hoje perto da hora do almoço, vê se não é a sua.
Não era.
Fiquei quebrando a cabeça e não sei (a)onde ela pode ter ficado.
Enfim, not a big deal. Documentos todos, dinheiro pouco. Uns patuás - esses são os que mais me doem.
Saí perguntando pelo paradeiro da bendita. Ninguém que soubesse. E houve desespero pela possível perda - desespero não meu, e sim de outros. Calma, um punhado de papel com números. Me farão perder um tanto de tempo na providência de outros, apenas.
Ouvi de novo hoje que não sou daqui.
E me deu um tanto de medo, um tanto de felicidade.
Mas tudo bem,
O dia vai raiar
Pra gente se inventar de novo.
‪#‎randômica‬

Randomizando forte:

No Sesc São Carlos tem um parquinho muito do legal. Somos, Daniel e eu, assíduos frequentadores. O nome do lugar é Horizonte. Acho bárbaro dizer que ~fomos ao Horizonte~; daora pensar que de fato estivemos em um lugar que é só o que se vê, nunca se alcança. Graças aos nomes próprios conseguimos essa proeza com certa frequência.
Areia no Horizonte - brinquedos de areia e carrinhos; muitas crianças chegaram junto pra brincar. Aquele lance, partilha, não partilha, todo mundo senta junto, a malemolência em lidar com as mães do parquinho (ouvi de tudo: que menino não usa colar; que criança quebra a perna se sentar em W; que menino de calça florida é lindo - mas o filho dos outros, claro and so it goes).
Ana Clara, linda, uns 3 anos, chuto eu.
- Tia, sabia que na minha casa eu também tenho um baldinho de areia?
- Ah é? E que cor é o seu baldinho?
- É azul com uma pá rosa, igual essa daqui (mostra uma pazinha cinza), só que é rosa.
- Que legal! E você já brincou com seu baldinho azul aqui?
- Já, eu vim com o Jean amanhã! (pirei na fala) Você conhece o Jean?
- Não, não conheço, quem é?
- É o namorado da minha mãe, ele me deu um baldinho azul porque me falou que as cores são de todo mundo!
Ponto pro Jean.
Mais de uma hora de Horizonte, pós-graduada em relacionamento com as mães do parquinho; hora de comer.
Comemos. Era também hora do início de um espetáculo que eu programava para a tarde, mas o cansaço toddlereano não permitiu que participássemos - do cansaço, dos terrible-fucking-two, da fala super afiada e do desenvolvimento cognitivo brutal saiu um chilique das galáxias. Um chilicão mesmo. Daqueles. De gritos e dizeres contraditórios:
(gritando, vermelho, afônico)
- EU QUERO ÁGUA!!!!!!!!!!!!!!111111111111111111
(toda trabalhada no silêncio e presença ativa, estendo a garrafa)
- NÃO QUERO ÁGUA!!!!!!!!!!!!!11111111111111111
(guardo a garrafa)
- EU QUERO ÁGUAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!1111111111111111111
(pego de volta a garrafa, estendo como oferta)
- NÃO QUERO ÁGUAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1111111111111111111
(respira, conta, ignora a plateia ao redor)
- Daniel, nós vamos para casa. Estamos cansados, então vamos embora. Sua garrafa está aqui se quiser. (botei o menino no carrinho, apertei o cinto e ‪#‎partiucasa‬ - moleque chilicando ultra)
No meio do caminho surge uma pessoa aleatória fazendo micagem pro menino parar de esgoelar. Ele ficou (mais) irritado, esgoelou mais ainda.
- NOOOOOOOOOOOOOOO!!! GO AWAY!!!!!!!!!!!!!!!!1111 (ele grita desconsolado)
Eu me desvencilhei da pessoa. Simplesmente saí, usei minhas habilidades de need for speed e parti, muito indignada com esse tipo de abordagem.
Se você leu até aqui, um pedido: essa pessoa, não seja ela. Se vc viu/tá vendo alguém com uma criança que tá no meio da crise, A MENOS QUE SEJA SOLICITADO, não se meta no lance. Sério, estressa muito mais todo mundo - além de fazer com que o provável fracasso seja muito frustrante pra você.
Eu bufando, Daniel se afogando em lágrimas que ele nem tinha mais. 100 metros depois ele dormiu. Apagou. Capotado, só acordou em casa, cerca de 40 minutos depois (calmíssimo, sereno, tranquilo, yogue nato, adorador de gatos).
Ainda fico aqui pensando no Horizonte, no Jean com o discurso de cores, na cognitividade que surta crianças e mães/pais/cuidadores.
Domingo tem mais.

do abacateiro

Bem que eu percebi que a poda estava sendo feita de qualquer jeito.
Largada.
Coitado dele - o vizinho abacateiro; jovem, frutífero, frondoso e barulhento. Abrigo de gatos e passarinhos.
Coitado dele.
A casa vizinha está para alugar; depois de certos dramas, a casa entrou em reforma. Há semanas o lugar vem sendo mexido (telhas, portas, janelas, movimento, medições, uma enorme caçamba quase no meu portão).
E o abacateiro impassível de folhas, pingando frutas maduras.
Não gosto de abacate.
Mas gosto de abacateiros.
O corte começou.
- Tira aquele galho lá senão vai cair coisa aqui, a gente acabou de trocar esse lance de telhas.
(facadas)
Isso já faz mais de uma semana.
Hoje acordei com um despertador orgânico de 1 metro de altura dizendo:
- Mamãe, tá barulho!
Facadas e facadas, uma corda, farfalhar, a violência do fruto que cai antes da hora.
- Moço, vc vai tirar a árvore toda?
- Cada abacate que cai é uma telha que quebra, dona! Mandaram, a gente faz. ( = domingo, 7h, não enche meu saco, moça, me pagaram pra estar aqui - o pensamento dele gritava.)
Saí.
Voltei.
O vizinho abacateiro se foi.
Não sem deixar evidentes sinais de sua luta: folhas pelo chão e um bom pedaço de raiz exposta. Ele brigou feio. Ele deu trabalho.
Bad trip do abacateiro.
Podia ter sido diferente.

Juventude (Czeslaw Milosz)

_Juventude_
Sua juventude infeliz e tola.
Sua chegada das províncias na cidade.
Os vidros dos bondes embaçados,
A miséria inquieta da multidão.
Seu terror quando você entra num lugar caro demais.
Mas tudo era caro demais. Alto demais.
Aquelas pessoas devem ter notado seus modos rudes,
Suas roupas antiquadas, e seu embaraço.
Não havia ninguém que ficasse ao seu lado e dissesse,
Você é um rapaz simpático,
Você é forte e sadio,
Suas desgraças são imaginárias.
Você não teria invejado o tenor num sobretudo de pêlo de camelo
Se imaginasse o seu medo e soubesse que ele iria morrer.
Ela, a ruiva, por quem você sofre torturas,
Tão linda ela lhe parece, é uma boneca em fogo.
Você não entende o que ela grita com seus lábios de palhaço.
Os formatos dos chapéus, os cortes das roupas, rostos nos espelhos,
Você lembrará tudo isso vagamente, como algo de um passado distante,
Ou como aquilo que resta de um sonho.
A casa a qual você se aproxima tremendo,
O apartamento que o deslumbra –
Veja, nesse lugar os grous vasculham o cascalho.
Quando chegar a sua vez você terá, possuirá, guardará,
E finalmente sentir-se-á orgulhoso, quando não há nenhum motivo.
Seus desejos serão realizados, e então você ficará boquiaberto
Com a essência do tempo, tecida de fumaça e nevoeiro,
Um tecido iridescente de vidas que duram um dia,
Que se erguem e tombam como um mar inalterável.
Os livros que leu não terão mais utilidade.
Você procurou uma resposta mas viveu sem resposta.
Você caminhará pelas ruas das cidades do sul,
De volta às suas origens, admirando mais uma vez, extasiado,
A brancura de um jardim após a primeira noite de neve.


Czeslaw Milosz