segunda-feira, 4 de julho de 2016

Da bola:


Apreciando um caminhão de lixo do portão. 
Ele, Daniel, a empolgação em forma de criança; ouviu o caminhão e os gritos dos lixeiros e correu. Vidrado no caminhão que barulhento funcionava do outro lado da rua.
Do complexo esportivo, duas caçambas cheias de sacos pretos.
Entre gritos e piadas dos lixeiros, os sacos eram retirados e jogados pra dentro do maquinário infernal que esmaga o que achamos que é fora.
Ele, Daniel, vidrado.
Ele, Daniel, a empolgação em forma de criança.
O maquinário infernal esmagando o não fora.
Eis que surge uma bola. Bola boa, dessas de clube, de jogar bem jogado.
Eles, os lixeiros, entre gritos e piadas, sacos de lixo e buzinas de carros, tocavam bola.
O maquinário.
Esmagando.
Terminado o processo, um dos lixeiros segue em direção a nós com a bola em mãos.
- Moça, tó pro moleque, todo moleque joga bola, só tá vazia, leva no posto que enchem.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa a bola estava pra dentro do meu portão.
Ele, Daniel, vidrado, bola em mãos, hipnotizado com o caminhão.
Eu, perplexa, grata pelo gesto - mas com temor confesso da aproximação repentina. Já havia sido proferida frase agressiva daquele mesmo aparelho fonador. Frase pra mim, frase pra outras mulheres na rua.
De repente, a rua da amargura.
Quando o caminhão de lixo passa eu tranco a porta.
Ninguém entra, ninguém sai.
- Com uma mãe dessa eu não sei o que faria - e risos.
Eu? Silêncio e vergonha.
Não dou bola.
Ganhei uma.

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